domingo, 27 de março de 2011

Ainda que eu não mereça...

DAQUI, SÓ ME RESTAM POEMAS

Um olhar, e vários risos
não se importa tanto com o poder
da fala
pois sabe o que é ser linda
e isso me fascina

Um elogio... Não. Eu não mereço
de soslaio te olhei
no fim, no meio, no começo

Passaria direto, batido
se não falasse comigo
eu falo demais,
mulheres como você me assustam
eu me perco no caminho

E daí só me restam poemas
para extravasar de meus olhos ao papel
seu cheiro que peguei rapidamente
seus olhos atentos
sua mudez
e sua beleza.

Henrique Britto


domingo, 20 de março de 2011

Escutando Seymour.

"...Seymour disse uma vez que tudo o que fazemos durante a nossa vida inteira é nos movermos de um pedacinho de Terra Sagrada para o próximo"
(página 150, JD Salinger, Pra cima com a viga, moçada! Seymour - uma introdução)

É com esse trecho do querido Salinger que inicio esse "desabafo".
Estou farta de pensar em mim 24 horas por dia. Estou sozinha, estou carente e verdadeiramente, estou um bocado egoísta, isso sim!
Sei disso por que não escuto mais ninguém. Não olho para o outro conseguindo me transportar para o lugar dele. A única coisa que faço o tempo todo é pensar o quão vítima sou da minha própria vida.
Preciso sair de foco, ser mais predicado. Quero ser importante quando me sentir doando, compartilhando, participando da vida do outro. Nem ao menos no meu trabalho tenho me dado por inteiro, e mesmo assim, ainda tenho ouvido "Você é a melhor professora que já tive..." E olha que ainda é março, e sinceramente, não mereço essas palavras vindas de um aluno meu.
Trabalho voluntário?
Não sei. Qualquer coisa que me transporte daqui, desse meu mundinho vazio, solitário e egoísta.
Nesse momento da minha vida, não quero "ser", quero "estar". Quero estar no outro num encontro verdadeiro de almas, que só fazem sentido se eu realmente sentir e me deslocar desse egocentrismo terrível no qual eu me instalei.
Vou violar essa esfera e invadir o universo fora de mim.

É hora de mudar o foco! Não quero ser o centro das atenções. Quero ser a atenção que as pessoas que me rodeiam necessitam.
Afinal, o que vale a vida se não formos um pedacinho de Terra Sagrada para o próximo?

Um dia de cada vez e não estou mais em mim.
D.


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Delicadezas.

-Sou difícil de lembrar o nome das pessoas...
-Ah, é?! Que bom que se lembrou do meu...
-Não precisei me lembrar do seu nome. Eu não me esqueci dele...
-E qual é a diferença?
-A diferença é que para lembrar é preciso de um mínimo de esforço, mas quando não se esquece, não. Antes mesmo de você pensar ele está alí...


segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Doce.

Dançava sozinha. Ele chegou, e me disse no ouvido:
_Demorei, mas consegui chegar! Pegue aqui! (com a garrafa de cerveja e o copo plástico em uma das mãos, e um outro copo na outra mão).

(Ele me apontava com o queixo pra pegar o copo plástico).

Eu o peguei, e então:

_O quê é?
_Uma pinguinha (...) com açucar...

Dei um gole sutil, (com receio por não saber o sabor).
Olhei para o fundo do copo...

_Nossa, é doce mesmo!
_Lógico que é. Fiz especialmente pra você!
_Sério? Foi especialmente para mim?
_Sim...bom, né?
_Muito bom, obrigada!

Abaixei a cabeça, um pouco tímida. Ergui novamente. Seus olhos se encontravam com os meus. As faces já estavam bem próximas. O ar, um do outro, já se fundiam num pequeno espaço de uma cristalizada bolinha de sabão.
O mais doce estava por vir.
Quando me dei conta, estava no último gole do copo.
Mas não foi do último gole que a bebida mais doce eu provei.

A saliva agora era puro mel.

Do amargo, a vida vem me presenteando não apenas com um doce, mas com divinas vertentes dele.



segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Música que lhe beija a boca


Era uma noite anormal de verão. Anormal porque não chovia, mas estava bastante quente e sensual.
Uma noite de verão sensual é aquela que você debruça na janela do seu quarto, solitária, e pensa assim ‘essa noite está convidando para entregar-me a ela’.
E então, com esse desejo jogado no universo, o telefone tocou.
Era o convite da noite. O convite que faltava para espalhar pelo quarto, roupas diversas, maquiagens, secador de cabelo ligado, sapatinhos, colares, brincos, anéis e tudo o que uma mulher precisa para ficar arrumada.
Ela se emperiquitou toda. E se sentia especialmente bonita, apesar de ter acordado com a péssima descoberta de que, seu recente ex-marido, já se exibia com outra por todos os lados da cidade.
Mesmo assim, ela se sentia especialmente bonita.
A campainha tocou. Ela desceu saltitante, aquelas escadas do velho prédio onde morava.
Então, um belo garoto a esperava. Garoto o qual ela já havia experimentado o sabor dos lábios. Mas sem muita pretensão, (até por tamanha tristeza sentida pela manhã), ela entrou em seu carro e partiu.
Chegando ao local, um barzinho de música românica, encontraram-se com outros amigos. Conversaram, riram, dançaram, cantaram (aquelas músicas cheias de dor de cotovelo) e beberam. Ela bebeu tequila, misturando-a com toda cerveja bebida antes.
Era o passo inicial de uma grande noite. A noite mais exótica da vida dela.
O momento de ir embora chegou rapidamente, (pelo menos era assim que ela se lembrava), e ele a conduziu até o carro.
O trajeto até a casa foi pouco percebido por ela, que ao abrir os olhos e avistar a portaria do prédio o olhou e disse:

-Mas eu não quero dormir...

Ele, um cavalheiro, a convidou então para uma volta pela cidade. Ela mais do que de pressa aceitou.
Ao pararem no primeiro semáforo eles se olharam. Ela colocou docemente a mão em sua nuca e os olhares continuaram fixos um no outro. Ele, delicadamente, desceu do volante sua mão direita, até a perna esquerda dela.
Foi aí que ela notou que para esse momento havia uma trilha sonora. Enquanto ele dirigia o carro, (sempre com a mão na perna dela), cantava de maneira tão bonita, acompanhando a música que tocava.
Uma música até então desconhecida por ela. Uma música que ela, (somente ela nesse momento), o ouvia cantar, com tanto charme.
E ela o olhava com tanto apreço, com tanta admiração, que nem a tequila lhe tirou da lembrança, aquele momento, do garoto charmoso, cantando enquanto acompanhava aquela música deliciosa.
O carro parou. A tequila começava a atrapalhar um pouco a lembrança do primeiro beijo da noite.
Mas o beijo aconteceu. E eles se entregaram ao beijo com tamanho desejo, que já não se viam mais em um espaço físico público, como a rua.
Não, eles não eram apaixonados um pelo outro, mas o beijo era apaixonante. Um beijo que envolvia boca, bochecha, pescoço, mãos, peles, corpos colados, cabelos, braços, abraços, olhares...
Um beijo com entrega! Sem pudor e sem rédeas. Um beijo sem tempo para acabar, eloquente, quente. Mais íntimo do que dois corpos nus, numa cama qualquer.
Um beijo com trilha sonora, que por tempo demais não saiu da lembrança dela.
Uma música, que agora é mais que melodia, letra e canção.
Uma música que não só lhe toca o ouvido, como também lhe beija a boca.

A noite acabou cedo. As noites, os dias, sempre acabam. Mas o beijo...

domingo, 23 de janeiro de 2011

Agora.

As paredes desse apartamento não me prendem mais.
Caiu-se as cortinas.
Escancarou-se as janelas.
Acabou-se a espera.

Hoje estou em queda, mas em queda livre.


:)

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

A espera do "N"

Iniciei a viagem com o pensamento na letra M.
Acompanhada das três mulheres, com as quais passei toda a minha vida.
Eis então que surge o 1° grande M.
O M. de Mulheres.
M.ulheres na estrada, ao som de R.E.M.
Érica no volante, Kelly no co-piloto, mamãe e eu, no banco de trás.
M.amãe, o M., pra lá de especial!
A cada instante com ela, a descoberta de uma mulher corajosa, disposta, aventureira e acima de tudo isso, uma mãe amiga. Que olha nos olhos, que diz sempre a palavra certa, que ri o tempo todo, e com a mesma intensidade, chorou comigo, compartilhando a "ferida aberta".
Foi ela, a responsável por nos acordar toda M.anhã.
O M. de M.anhã. Manhã de sol em Ubatuba! Para contrariar toda a fama da cidade e toda essa catástrofe de chuva, em tantos lugares do Brasil.
Deus quisera que o astro rei nos contemplasse com toda excelência de sua poderosa luz.
Logo no 1° dia de praia, outro M. surgia: o bar do M.ID.
No 3° dia, expectativa para a chegada de mais um M. importante, a M.eire.
Com a chegada dela, a chegada também de muita M.agia.
Entardecer, M.aresia, alguns novos "colegas"... M.eninos!
Debate com eles nas areias da praia. M.eninos x M.eninas: sobre o amor, relacionamento, atitude, traição, fidelidade, entrega, conquista, M.áscaras, jogos, falsidade e outras coisinhas mais. Resultado do debate, concluído por nós todos:
A "culpa", não está no sexo feminino ou no masculino, mas sim na complexidade do relacionamento humano.
E cá entre nós, não vivemos sem essa M.istura M.ística do contato, de viajar no universo de um outro ser. Queremos sempre adentrar, entender, responder perguntas, ainda que para nós seja sempre desconhecida.
Escrevi a pouco a palavra M.ística, e me dei conta de mais esse M.
A M.ística que nos envolve, que nos M.ove. A M.ística que nos impulsiona a olhar nos olhos de alguém e nos sentir atraídos, sabe-se lá por qual razão, ou ausência total dela. De onde nasce, e também como M.orre essa reação explosiva e fascinante?
Mas para que tantas perguntas inúteis, se a única coisa que realmente importa e queremos no M.omento é vivê-las. Queremos viver todas as perguntas, mesmo que não haja dedo apontando a direção.
M.omento! E não é preciso dizer que esse M. sempre me envolve profundamente.
A chegada de uma pessoa-cometa (aquela que, como dizia o poeta, "vai passar"), nos deixa com aquela deliciosa sensação de borboletas no estômago. E ainda que saibamos não pertencer a aquele cometa, é sublime saber que estamos alí, no respectivo M.omento. Isso não é M.aravilhoso?
É, percebo agora que começo a colecionar pessoas-cometas. E isso, não é de todo ruim, não. Agora falo somente do lado bom, bonito e raro.
Sim, são pessoas-cometas. Cada uma delas com sua bagagem num espaço livre e infinitamente singular, impossível de carregarmos fisicamente, sendo nós mesmos dotados da nossa própria, (ainda que diferente), bagagem. Estando sempre de M.alas prontas a percorrermos M.undo afora e pessoas adentro. Mesmo que por um M.omento.
Praia, M.ar, M.omento, mais um M.omento!
Fecho os meus olhos e "ele" está lá na praia. Com ele toda sua bagagem, e por incrível que pareça, carregando justamente a letra M. no nome. No nome de alguém que agora é anônimo.

Pensando bem, não tem como N.egar. Reconheço agora que depois do M. sabemos que o N. sempre vem. (É preciso não fugir daquilo que desejo para mim!).
E eu guardo ou aguardo, desde sempre, esse N!
O finalmente N. O N. que espero! (Que é M.uito M.ais que só M.omento, ainda que tenha toda essa M.agia, descrita a pouco por M.im)

O N de nós (com letra minúscula, sem necessidade alguma da separação de um ponto final).

Boa noite, Day.